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17.5.11

Histórias das Canções - Assombração

Postado por Rafael Freitas

Quando começamos a definir o repertório para o nosso Cd, uma música chamava a atenção de todo o grupo. Era “Assombração”, do violeiro, cantor e compositor mineiro Zé Helder. O músico é amigo do Cleverson e ficou empolgado com a ideia de gravarmos sua música.

Por email, pedi que ele me falasse sobre sua composição. E eis sua resposta!


Bom, sobre assombração, vamos lá:

Eu sempre tive verdadeiro fascínio por histórias de assombração e do folclore em geral. Assim como tenho fascinação por João Guimarães Rosa. É chupado dele a parte do "Tinhoso, o Capiroto, o Cujo, o Pé-de-bode, Dianho, Sujo, Que-não-se-ri" e eu completei com "Que-não-se-pode" pra rimar. Está no Grande Sertão: Veredas. O resto da letra é um verdadeiro glossário de várias assombrações recolhidas da nossa região (como a Maria Engomada - Cachoeira de Minas; o famigerado Chiquinho da Borda) e do folclore brasileiro, como a sétima filha mulher da mesma casa que vira bruxa e vem chupar sangue à noite em forma de mariposa. Ou o lobisóme, que na versão matuta, é um bicho amarelo por ter o couro virado ao contrário e ataca galinheiros não pra comer galinha, mas pra comer a titica. E tantas outras fascinantes, como o corpo-seco, que eu morria de medo, pois tive um tio contador dessas histórias, o tio Mauro. O refrão fala da afinação Rio Abaixo, que tem origens interessantíssimas também, sempre ligadas ao Capeta descendo o rio de canoa ponteando sua violinha. Bem, mais curioso de tudo, é que sempre acontecem coisas estranhas relacionadas com essa música. Vocês testemunharam uma delas durante as gravações, e eu já tive problemas técnicos na hora do show. Pode ser coincidência, mas eu adoro pensar que não é. Como disse Cervantes "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay".

Temos muito o que agradecer ao Zé Helder por essa música, por ter permitido que a gravássemos. E ela rende histórias... Ô, se rende!


Assombração (Zé Helder)

Noite de sexta-feira, lua cheia
Suindara agourando
Tabaréu se benze pelo sinal da Santa Cruz
Virgem Maria, Credo em cruz
Isso é medo de assombração

Moça se enamorou do vigário
Virou mula sem cabeça
Morde o freio, dispara
Soltando fogo pelas ventas
Credo em cruz, mas que medo de assombração

Lobisóme vira a pele do avesso
Amarelo, olho vermelho,
Invade galinheiro
Come titica e se espoja
Credo em cruz, mas que medo de assombração

Sétima menina, muié da mesma casa
Nasce bruxa, chupa sangue, cachaça
Bebe tudo num só gole, o garrafão
Que medo de assombração


Mora um cramulhão dentro do bojo da minha viola
Quando afino em rio-abaixo, ele que me ensina as moda.


Pio de urutau, caipora
Curupira, Pisadeira, Capeta da Borda,
Maria Engomada no porão
Credo em cruz, mas que medo de assombração

Porco preto, corpo seco
A porca de sete leitões
À meia noite da sete voltas
Procurando pra matar
Credo em cruz, mas que medo de assombração

Tinhoso, o Capiroto, o Cujo, o Pé-de-bode
Dianho, Sujo, Que não se ri, Que não se pode
Artes de Saci, fogo-fá da Boitatá
Vento no Uakti, arma penada em cafezá


Mora um cramulhão dentro do bojo da minha viola
Quando afino em rio-abaixo, ele que me ensina as moda.



Um pouco mais do trabalho de Zé Helder: http://www.myspace.com/zehelder

13.10.10

Primeiro dia de gravação

Às 11h30min desta quarta-feira, o Cantus Quatro (com exceção de Rafael, que só deve chegar na sexta) e seu produtor Cláudio Nucci, Bruno Vinci e Matheus Macedo chegaram no Visual Studio, em Pedralva, para começarem as gravações.

Aproveitando que a bateria estava montada, Cleverson gravou uma guia da música "Assombração", composição de Zé Elder, e Diovani já colocou a bateria nesta faixa. Em seguida, fizeram o mesmo com a canção "O Tempo", de Cleverson e João Eugênio, para que a bateria pudesse ser desmontada e o processo de gravação tivesse continuidade.

"Assombração" se tornou o foco das gravações deste dia, considerando todos os seus detalhes; por isso decidiram gravar seus violões (aço, sete cordas e doze cordas). Em seguida, Matheus gravou as percussões, colocando efeitos muito interessantes e pertinentes à faixa.

Como só faltava o baixo para concluir a música, foi sugerido que Diovani gravasse o instrumento e assim "Assombração" foi concluída ainda na quarta-feira.

Animados com o rendimento do dia, os músicos planejaram o próximo dia de gravação, que começaria com os violões de mais algumas faixas.